sexta-feira, 18 de abril de 2008

Perneta

Começou por olhar para mim com um ar desconfiado.
Passou um dia, passaram dois. Devem ter passado umas duas semanas. E mesmo que eu tivesse uma guloseima na mão, desafiava-me a atirá-la para perto dele.
Depois ficava a vê-lo virar-me as costas, naquele seu andar meio em frente meio de lado, como só um cão com três patas consegue fazer.
Quando estava sol, dormia de barriga para o ar, aproveitando a ausência da pata esquerda traseira para deixar correr a brisa (imaginava eu). E não precisava de levantar nenhuma para aliviar a bexiga.

Certo dia, assim sem mais nem menos, levantou-se e, meio em frente meio de lado, veio buscar o biscoito que eu tinha na mão. E pirou-se no mesmo estilo com que, um ou dois dias depois, me deixo fazer-lhe festas. Poucas, porque um gajo cão com apenas três patas nunca sabe quando uma qualquer besta com apenas duas se vai aproveitar do facto para lhe infernizar a vida.

Por esta altura, já eu lhe chamava Perneta sempre que o via, ao ponto de acreditar que ele já sabia que eu estava a falar com ele. Pelo menos ficava contente quando me via de manhã, abanando o rabo de uma forma que, por só ter três patas, dava ideia de o obrigar a abanar meio corpo. E eu ficava contente quando não o via à noite, principalmente nas noites frias ou de chuva, pois sabia que, na companhia do Magrinho, tinha encontrado sítio para se abrigar.

Há dois dias, entre lágrimas, a Tânia disse-me que o Perneta tinha sido encontrado morto, perto do cemitério que fica na zona onde vivo.
Eu respirei fundo e tentei estancar a água que lhe corria dos olhos.
Agora, todos os dias de manhã ao sair de casa, sou eu quem chora em silêncio. Rodeado por sem abrigo de quatro patas e sentindo a falta de um que apenas precisou de três para cativar-me.

1 comentário:

Nekita disse...

Bonita homenagem ao pequeno perneta. Agora o Magrinho vai ficar mais sozinho...mas outros amigos cães virão para lhe fazer companhia.
Quanto a chorar pelo pequeno amiguinho é muito simple, agora mesmo não me estou a conter.
Não só choro pelo amiguinho cor de mel, mas choro por todos aqueles que tal como ele são abandonados por pessoas que não sabem o sentido da palavra amizade, por pessoas cuja palavra RESPEITO PELA NATUREZA não faz parte do seu diccionário. tenho pena de todos os animais mal tratados, abandonados, marginalizados. MAS GITO BEM ALTO PARA QUE ME OUÇAM QUE SINTO MAIS PENA DE VOCÊS SEUS ANIMAIS DE DUAS PATAS CUJO O CEREBRO É MAIS PEQUENO QUE OS DEJECTOS DO MAIS PEQUENO RATO.
SEUS INCULTOS, VIS E IGNÓBEIS SERES. A TODOS VÓS QUE OS MALTRATAM DEVIA ACONTECER-VOS O MESMO, MAS EM DOBRO...CLARO!!!!!